Poesia 


Casa no Quintal

Uma folha de bananeira

sobre um fio de varal
foi morada passageira
de valoroso casal.

Sob a folha pernoitar,
do sereno protegido,
foi a escolha salutar
de uma lavandeira e marido.

A folha da bananeira,
por obra da Providência,
acompanhou o dito fio
na direção e sentido.
Dando, desta maneira,
com bastante eficiência
a proteção contra o frio
e o sossego garantido.

Com toda privacidade
e o aconchego do lar,
havia a necessidade,
-da Natureza exigência -
para todo ser vivente
que, com natural diligência,
procura inexoravelmente
um jeito de procriar.

Um fio reto e esticado
pode dar ao passarinho
sossego e privacidade.
Mas, para construir um ninho,
até o oleiro mais dedicado,
com mão de obra e carinho,
não tem possibilidade.

A primeira folha,
pela Natureza ofertada,
secou, murchou e caiu
comprometendo a morada.

Após breve revoada,
e com a tarefa cumprida,
retornaram ao quintal
com a vida duplicada.

A dona da casa e seu filho
construíram novas casas
pois não admitem maltrapilhos
os novos filhos com asas.


Loureiro,   2017.

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P.S. A dona da casa é minha sogra Dona Didi e o seu filho Luciano.
E esses dois aí do lado são os novos hóspedes do quintal.
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Naufrágio


Soçobram momentos de luto,
Os remanescentes lamentam.
Nada nos conforta.
Inda agora havia luta,
Agora nada mais resta.

Severa demais foi a lida.
Os desafios imensos.
Na trajetória vivida, 
Intensa e completamente,
A lição foi explicada,

e plenamente aprendida.

Soubeste de forma impar,
O impossível ignorar.
Nunca te deste por vencida.
Isto é lição pra guardar:
Amavas demais a vida!

Loureiro, 2012.




Ao Professor Mário Jorge

A simples formalidade, a tal aposentadoria
é apenas a baliza que, com muita propriedade, 
premia com galhardia aquele que realiza. 
Quem sempre fez com maestria, bem feito, 
não há de justificar, deve é se vangloriar 
com o atendimento do pleito.

Na arte de ensinar Engenharia
fez-se indispensável a tua companhia. 
O que chamas Academia, tornaste um  templo. 
Com o teu exemplo e douta sabedoria.

Não aches  que agora aposentado
podes ficar afastado. Nem pensar! 
Independente do deferido pleito, 
saibas que por direito, 
em cartório registrado, 
tens dentro do nosso peito, 
um lote com vista pro mar.

Loureiro, 2012.


C_espelhoPinha











































Tributo a meus avós de criação

Passar férias no sertão

era muito arretado.

A gente contava os dias

pra chegar no fim do ano.

E então tendo chegado

rumávamos todos pra Emas,

município localizado

no sertão paraibano.

 

A propriedade rural

denominava-se Angicos.

Nome de árvores altas

que dominavam a cena.

A casa da sede era igual,

teja vendo!

àquela que Jessier

também viu,

na cumeeira correndo*.

 

O dia era muito corrido:

de manhã lombo de jegue,

chapéu de couro no quengo,

de baleadeira em punho,

caçando calango e cobra,

correndo mundos e fundos...

Depois de um breve intervalo,

pra repor as energias,

vinha o banho de rio,

Rio de Tia Caçulinha.

Debaixo das oiticicas

com cipós dependurados,

éramos vários Tarzãs

em frenéticos balançados.

E quando tinha mulher

pintando na região,

não havia problema

era só manter o clima

era só deitar no chão

com a pitoca pra baixo

e a bunda pelada pra cima.

Ah! E tinha o Poço dos Paus.

Não tinha outro mais profundo.

Buscar terra lá do fundo

era a confirmação

de que naqueles tempos frugais

nós não sabíamos,

mas... dominávamos o mundo!

 

Um fato muito engraçado,

se deu ali no terreiro

brincando de criador

com o primo Roberto Loureiro.

Os dois ali agachados,

concentrados na tarefa

de construir um cercado

para nossa criação.

Um osso avantajado

era boi reprodutor.

Um xêxo arredondado,

uma vaquinha leiteira.

E nós a partir madeira

para infincar no chão,

construir uma paliçada

pra resguardar a criação.

 

Eu não sei dizer ao certo

o que foi que sucedeu.

Só sei que o primo Roberto,

fixando um mourão,

conseguiu intercalar

a cada batida na estaca,

um sonoro peidão.

Pá pum pá, pá pum pá...

Contamos  doze pancadas.

Pá pum pá, pá pum pá...

Não tendo o primo Roberto

mais gás para soltar,

paramos e nos sentamos.

E durante meia hora,

de gargalhar não paramos.

 

Outro fato comovente

se deu dentro de casa,

eram oito redes na sala,

primos, irmãos e amigos,

todo mundo enfadado

com a vida dos Angicos.

Acordei aperreado         

pois eu havia sonhado

que mijava acordado.

Acordado eu não estava,

o fato é que eu mijava

a cueca, a rede e o piso.

No meio da madrugada,

a rede toda mijada

me vali da minha vó

que muito cedo acordava.

Que rapidamente trocou

a rede em que eu dormitava,
evitando prontamente
que eu fosse motivo de riso.

 

Agora eu relembrando

daquela maravilha,

aquele frescor matutino.

Me dá uma saudade danada

de quem já fui várias vezes

um querido inquilino.

De meus queridos avós:

Ela Ercília, ele Capitulino.

Loureiro, 2007.
(baseado em fatos reais)

*Alusão ao imperdível poema do conterrâneo Jessier Quirino: "A cumeeira de aroeira lá da casa grande". Leia aqui 




O pé de maracujá

Nasceu de uma semente

talvez jogada lá,

displicentemente.

Só sei que lá está,

no canteiro do quintal,

 o pé de maracujá.

 

Seus galhos agora secos,

todos entrelaçados,

como cabelos assanhados,

antes, verdes,

dependuravam frutos

e conquistavam telhados.

 

Das frutas,

espremendo-se os caroços

fazem-se batidas e ponches

muito deliciosos.

 

As flores,

tão belas e bem perfumadas,

atraem insetos e pássaros

nas tardes ensolaradas


Loureiro, 1975.

 


                                 Xô!


Escrevo teu nome TRISTEZA, na esperança velada,

Que fiques de vez grudada neste papel sem verve.

Que saias pelo meu dedo, pegues carona na tinta,

Para que eu não mais te sinta, apenas te observe.

 

Seria ser diferente, se conseguisse tal feito,

Pois também daria jeito de aliviar bem a vida.

Faria mais que ligeiro que quem fosse teu parente,

Fosse também passageiro nesta viagem de ida.

 

A ponta de minha caneta do papel não tiraria,

E duma penada só, juntinho derramaria:

Afliçãomágoadordesgostomelancolia

Pesartédioconsternaçãoabatimentoagonia


Loureiro, 1996.



A saudade mata a gente,

é o pior sentimento,

coisa ruim que se sente,

a todo e qualquer instante.

Não se tem abatimento

com carteira de estudante,

só quando se tem um momento,

um daqueles bem marcante:

Um beijo de estacionamento

Loureiro, 1997.



Sem ponto e sem vírgula

A busca da rima

transtorna o poeta

modifica o clima

o afasta da meta

ao abrir o caderno

numa página alheia

e encontrá-la em branco

prá fugir do inferno

deixa-a logo cheia

conheço poesia

de forma concreta

algo rima com algo

tô tranqüilo

enquanto tiver algo

terá rima.


Loureiro, 2001.




             Cotidiano


Mataram um rapaz na minha rua.

Foram dois estampidos mortais.

Dois projéteis que saíram

de um brinquedo letal.

Dois caras vieram de bike,

um com fé no dedo,

o outro no pedal.

Mataram um rapaz na minha rua.

E eu pergunto meu amigo,

por que o espanto?

 

Que coisa mais banal!!!



Loureiro, 2001.



    Homenagem de enxerido


Sob um belo pretexto,

foi muito bom, bom de fato,

digitar todo este texto,

de tão nobre literato.

 

Dr. Borba, por favor,

perdoe-me o enxerimento.

No verso não sou doutor,

mas também não sou jumento.

 

Deixa a multidão contente,

data de tanta nobreza.

Nasceu importante gente,

primeiro, a Baronesa.

 

De tão nobre mulher,

não conheço a biografia.

Não vou meter a colher,

pra não entrar numa fria.

 

O outro aniversariante,

Eu conheço um bocadinho.

Pra mim já é o bastante,

pra ver incapaz o versinho.

 

Pra honrar homem tão forte,

Não há verso tão potente.

Não há prosa, glosa ou mote,

que seja suficiente.

 

De que madeira, pensei,

foi talhado este homem?

Do carvalho suspeitei,

pois este ele trás no nome.

 

Tem que ser forte a madeira,

O que toda gente enxerga.

Pra quinze era sua feira,

com isso, qual que não verga?

Data que alegra a gente,

dia muito importante.

Na véspera nasceu um ente,

deveras apaixonante.

 

Deu-se há um ano este ato,

eu me lembro bem do dia.

Com todo aquele artefato,

na sala de cirurgia.

 

Apoiando Ana Regina,

de doutor tava trajado.

Era muita adrenalina,

meu traje muito apertado.

 

Pedrinho tudo gravou,

nehuma dúvida há.

Um brado forte ecoou,

ouviu-se na hora agá.

 

Honestamente duvido,

era grande o meu afã.

Semelhante bramido,

acreditem, nem Tarzã.

 

Desde então, que alegria!

Depois que nasceu Marina.

Pois agora, todo dia,

com mais luz se ilumina.

 

Por todos estes motivos,

eu peço com muito orgulho.

Fiquemos todos festivos,

saudemos o 22 de julho.

Loureiro, julho de 1995.



   
 
 
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